Novas denúncias apontam possíveis irregularidades em contratos milionários da saúde em Jarinu (SP) envolvendo uma empresa anteriormente ligada a Lucas Bento da Silva Isepon, secretário de Saúde de Nova Odessa e um dos alvos da Operação Sangria.
As diligências ocorrerem na quarta-feira (7) e investigam suspeitas de corrupção, peculato, fraude em contrato da saúde e lavagem de dinheiro em Nova Odessa.
Os novos perguntas incluem suspeitas de pagamentos por serviços semelhantes contratados por duas instituições, falta de clareza sobre a divisão dos atendimentos e ausência de valor mensal fixo em um dos contratos.
Documentos analisados através da TV TODODIA mostram que Lucas assinou digitalmente, no mês de abril de 2025, um contrato entre a Abasesp e a L & F Baldocchi Serviços Médicos Ltda., reconhecida no documento também como Home & Health. A planejamento administra a Unidade Mista de Saúde Monsenhor Jacob Conti, hospital municipal de Jarinu.
Em 2026, um novo contrato foi firmado com a Home & Health Serviços em Saúde Ltda., mantendo o mesmo CNPJ, 30.399.112/0001-28, mas com outra razão social. Registros do Cismetro (Consórcio Intermunicipal de Saúde na Área Metropolitana de Campinas) também mostram a modificação da pessoa indicada como responsável através da empresa.
Alterações no cadastro e nos contratos
No credenciamento do Cismetro referente a 2023, Lucas aparece como responsável através da L & F Baldocchi Serviços Médicos Ltda. Já no cadastro de 15 de julho de 2026, a empresa consta como Home & Health Serviços em Saúde Ltda., com a médica Danielle Karolline Lojo Ferreira indicada como responsável.
O contrato de 2025, assinado digitalmente por Lucas, estima gerenciamento e coordenação de escalas médicas, disponibilização de profissionais e planejamento de pagamentos. A remuneração é definida conforme a demanda e a autorização da responsável através da unidade de saúde, sem indicação de um valor mensal fixo.
Já o contrato de junho de 2026 estabelece o valor mensal de R$ 508.795, condicionado à demanda assistencial e à comprovação dos serviços realizados. O documento estima a apresentação de escalas, registros de frequência, relatórios de execução e outros comprovantes para fiscalização dos pagamentos.
Os registros demonstram o vínculo anterior de Lucas com a pessoa jurídica, mas não identificam sua eventual participação na atual composição societária.
Registros apontam pagamentos por duas instituições
Documentos fiscais levantados através da TV TODODIA apontam que, entre fevereiro e maio de 2026, a Home & Health emitiu duas notas fiscais por mês para a Abasesp, relacionadas a serviços de gerenciamento e plantões médicos.
Conforme o levantamento, os valores totalizaram R$ 2.035.180 brutos e R$ 1.910.016,41 líquidos no momento, com faturamento bruto mensal de R$ 508.795.
Registros do Portal da Transparência do Cismetro também apontam movimentações financeiras destinadas à mesma pessoa jurídica para prestação de serviços médicos em Jarinu.
De acordo com os dados reunidos através da reportagem, nove empenhos por dispensa de licitação, referentes ao exercício de 2026, correspondem a R$ 1.158.536,21 em pagamentos informados, com valores individuais entre R$ 101.045 e R$ 151.397,84.
A existência de contratações e registros financeiros envolvendo as duas instituições motivou perguntas sobre a divisão dos serviços e a fiscalização dos recursos públicos. Os documentos mostrados, entretanto, não comprovam pagamentos duplicados ou outras irregularidades.
Moradora questiona transparência dos contratos
Caroline Módolo, presidente da FNAB (Associação Nacional das Religiões Afro-Brasileiras), moradora de Jarinu e atuante na fiscalização de políticas públicas, questiona as contratações.
“A empresa do Lucas aparece contratada aqui em Jarinu pela empresa que administra o hospital e pelo Cismetro. Ela recebe das duas empresas pelo mesmo serviço de prestação de serviços médicos. Não há nenhum detalhamento sobre qual é a diferença entre os serviços contratados por cada uma”, afirma.
Caroline também questiona a ausência de valor mensal fixo no contrato de 2025.
“O contrato feito com a empresa que administra o hospital público de Jarinu não tem nenhuma referência de valor. O que tem no contrato, que beira o absurdo, a imoralidade, é que será pago de acordo com o entendimento da demanda do responsável pelo hospital”, declara.
Embora não estabeleça um valor mensal fixo, o instrumento estima pagamento conforme a demanda e mediante apresentação de documentação dos serviços prestados.
Denunciante relata dificuldades no Portal da Transparência
Caroline afirma que detectou dificuldades para entrar determinadas regiões do Portal da Transparência de Jarinu depois de a propaganda da Operação Sangria e das informações sobre a empresa.
“Quando saiu a notícia do jornal [TV TODODIA], a Prefeitura tirou do ar o acesso ao Portal da Transparência da nossa cidade”, afirma.
Segundo ela, seções relacionadas a fornecedores, contratos e licitações ficaram indisponíveis. A reportagem não confirmou a causa do problema nem reconheceu elementos que permitam atribuí-lo a uma decisão deliberada da Prefeitura.
A moradora também afirma que pediu documentos à gestão municipal e pretende trazer os perguntas ao Ministério Público.
“Foi aberto um pedido de sindicância. Também fizemos uma requisição de todos os documentos e já marcamos uma reunião no Ministério Público para levar formalmente a denúncia na sexta-feira e pedir que ela seja relacionada à investigação da Operação Sangria”, declara.
Operação Sangria
A investigação policial iniciou depois de a apreensão de R$ 30 mil em espécie, no mês de dezembro de 2025, em Campinas. De acordo com a Polícia Civil, existe indícios de que o dinheiro seria destinado a um agente público ligado ao contrato investigado.
Na operação de quarta-feira (7), foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão em Nova Odessa, Campinas, Indaiatuba e Hortolândia. Os policiais apreenderam cinco veículos, R$ 49 mil em espécie, celulares, documentos e um computador.
Até o momento, não existe confirmação de que os contratos e pagamentos relacionados a Jarinu integrem a investigação da Operação Sangria.
Outro lado
A TV TODODIA entrou em contato com a Prefeitura de Jarinu, o Cismetro e a Abasesp para pedir esclarecimentos sobre os contratos, a prestação dos serviços e os pagamentos mencionados. Até a conclusão desta reportagem, os posicionamentos não haviam sido recebidos. O espaço se mantém aberto para manifestação.
Em comunicado divulgada no dia da operação, a Prefeitura de Nova Odessa informou que ainda não havia tido acesso integral aos autos da investigação e, por isso, não dispunha de elementos para uma manifestação conclusiva sobre os fatos.
A gestão municipal declarou respeitar e confiar no trabalho das autoridades, colocou-se à disposição para prestar esclarecimentos e manifestou confiança na integridade e no profissionalismo do secretário de Saúde.
Com informações de TodoDia
